R$ 3,4 trilhões em crédito para empresas: o produto que mais vende, o que mais cresce e o que quase não atrasa
O Banco Central publica, produto por produto, quanto crédito as empresas contrataram, quanto elas pagam de juros e quanto deixam de pagar. Juntando essas três colunas, aparece o mapa que falta a quem vende crédito: qual produto move volume, qual está crescendo e qual quase não dá problema. A surpresa é que o produto que mais vende e o que menos atrasa são, em boa parte, o mesmo.
- O mapa: R$ 3,43 trilhões em 12 meses, produto por produto
- O produto que quase não atrasa
- O capital de giro ficou mais curto, e girou mais vezes
- O produto que parece fácil custa caro para todo mundo
- Como montar a esteira a partir do jeito que o cliente vende
- O que o empresário que vende crédito faz com isso
- Fontes desta análise
O mapa: R$ 3,43 trilhões em 12 meses, produto por produto
O Banco Central publica, todo mês, quanto crédito novo as empresas contrataram em cada modalidade. Somando os doze meses de agosto de 2025 a julho de 2026, as concessões de crédito com recursos livres para pessoa jurídica chegaram a R$ 3.429,6 bilhões, alta de 9,4% sobre os doze meses anteriores [BCB, série SGS 20635, soma de ago/2025 a jul/2026].
Recursos livres são as operações com juros negociados entre banco e empresa, sem dinheiro de programa público, de BNDES ou de fonte obrigatória. É o território onde quem vende crédito monta a própria esteira. E ele não é um bloco único: é uma lista de produtos com volume, velocidade e risco muito diferentes.
Dois produtos, sozinhos, respondem por quase metade de tudo: desconto de duplicatas e recebíveis, com R$ 919,8 bilhões, e antecipação de faturas de cartão, com R$ 619,5 bilhões. Juntos, somam R$ 1.539,3 bilhões, ou 44,9% de todo o crédito livre contratado por empresas no período [BCB, séries SGS 20636 e 20638].
Os dois têm a mesma natureza: a empresa já vendeu, e o banco adianta o dinheiro de uma venda que vai entrar no futuro. É o crédito apoiado no faturamento, não no patrimônio.
Uma nota de leitura: concessão é o valor desembolsado no mês. Um mesmo cliente que contrata várias vezes no ano aparece várias vezes na soma. Por isso concessão mede atividade de venda, e não o tamanho da dívida das empresas.
O produto que quase não atrasa
Volume é metade da conversa. A outra metade é quanto de cada produto deixa de ser pago. O Banco Central mede a inadimplência pela parcela da carteira com atraso acima de 90 dias, e o retrato de julho de 2026 separa os produtos com nitidez.
A antecipação de faturas de cartão registrou inadimplência de 0,01% em julho de 2026, com juros médio de 16,25% ao ano nas novas operações [BCB, séries SGS 21089 e 20721, jul/2026]. Não é um mês de sorte. Em 185 meses de série, de março de 2011 a julho de 2026, a inadimplência desse produto nunca passou de 0,30% e teve média de 0,064%. No mesmo período, a média do crédito livre para empresas foi de 3,42% [BCB, séries SGS 21089 e 21086, série completa].
O desconto de duplicatas e recebíveis ficou em 0,94% de inadimplência, com juros de 19,25% ao ano [BCB, séries SGS 21087 e 20719, jul/2026]. Os produtos de cadeia de fornecimento seguem na mesma faixa: compror com 0,26%, vendor com 0,57% e financiamento a exportações com 0,56% [BCB, séries SGS 21103, 21102 e 21109].
A lógica é direta. Nessas operações o pagamento vem de uma venda que já aconteceu e que tem um pagador identificado. O banco não depende apenas do caixa geral da empresa para receber de volta. Por isso o 0,01% da antecipação de cartão mede a estrutura da operação, e não a saúde financeira de quem a contrata.
O retrato de um mês esconde a direção. Em doze meses, sete dos dez produtos do gráfico pioraram. Só o financiamento a exportações (de 0,80% para 0,56%) e o vendor (de 0,58% para 0,57%) melhoraram, e a antecipação de cartão ficou estável. No conjunto, a inadimplência de todo o crédito livre para empresas subiu de 3,71% para 4,19% [BCB, séries SGS 21086, 21109 e 21102, jul/2025 e jul/2026].
Sobre as taxas desta análise: são médias em percentual ao ano das novas operações de cada mês. Em cada produto, o Banco Central pondera as taxas pelo valor desembolsado. São médias de mercado e não equivalem ao custo efetivo total (CET) de um contrato. Algumas linhas oscilam muito de um mês para outro.
O produto que mais vende no crédito para empresa é também o que menos atrasa. Não é coincidência: os dois dependem da mesma coisa, a venda que o cliente já fez.
O capital de giro ficou mais curto, e girou mais vezes
O maior salto dos doze meses está numa linha só. As concessões de capital de giro com prazo de até 1 ano passaram de R$ 169,0 bilhões para R$ 322,3 bilhões, alta de 90,7% [BCB, série SGS 20639]. O movimento começou em janeiro: de janeiro a julho de 2026 foram R$ 241,1 bilhões, contra R$ 87,0 bilhões no mesmo período de 2025.
O número pede leitura cuidadosa, porque ele não significa que as empresas passaram a dever o dobro. Concessão soma os contratos novos do mês. Uma empresa que toma um empréstimo curto, paga e toma outro aparece duas vezes na soma. O que mede a dívida é o saldo. E o saldo conta uma história bem diferente:
- Giro de até 1 ano: saldo subiu R$ 22,0 bilhões em doze meses, de R$ 70,5 bilhões para R$ 92,5 bilhões, alta de 31,2% [BCB, série SGS 20547];
- Giro acima de 1 ano: saldo caiu R$ 27,5 bilhões, de R$ 410,4 bilhões para R$ 382,8 bilhões, queda de 6,7% [BCB, série SGS 20548];
- Capital de giro total: saldo caiu 1,2%, de R$ 496,1 bilhões para R$ 489,9 bilhões [BCB, série SGS 20550, jul/2025 e jul/2026].
O volume contratado de capital de giro subiu 50,0% em doze meses, para R$ 505,7 bilhões, enquanto o saldo total desse produto caiu 1,2% [BCB, séries SGS 20642 e 20550]. O saldo indica uma troca de prazo: a parte curta cresceu, a longa encolheu e o total ficou quase igual. Os dados agregados não mostram se são as mesmas empresas. O prazo também encurtou: o prazo médio contratado do giro de até 1 ano, contado até a última parcela, caiu de 5,72 para 3,08 meses na média de doze meses [BCB, série SGS 20860, cálculo sobre a série mensal].
Nas concessões, o giro acima de 1 ano ficou abaixo do mesmo mês de 2025 em cinco dos sete primeiros meses de 2026, e o acumulado de janeiro a julho caiu 14,9%. Julho marcou R$ 7,1 bilhões, o menor valor mensal desde fevereiro de 2018 em termos nominais. Em doze meses, porém, essas concessões ainda subiram 11,7%, por causa do fim de 2025 [BCB, série SGS 20640]. Essa queda, de R$ 12,9 bilhões, é pequena perto da alta de R$ 154,1 bilhões do giro curto no mesmo período. Por isso a troca de prazo aparece no saldo, mas não explica sozinha o salto das concessões.
O próprio Banco Central registrou o movimento. No Relatório de Política Monetária de junho de 2026, escreveu que as concessões do crédito livre a pessoas jurídicas cresceram "impulsionadas pelas modalidades de curto prazo", e que o aumento das contratações "foi compensado por volume maior de pagamentos" [BCB, Relatório de Política Monetária, junho/2026, p. 24 e 43 do PDF]. O relatório não detalha a causa, e o Banco Central não publicou nota de mudança de método para essas séries.
Para quem vende crédito, a consequência prática é outra: cliente de capital de giro curto tende a voltar mais cedo. Com prazo médio perto de três meses, a próxima contratação chega logo. A demanda também aparece do lado dos bancos: na pesquisa trimestral do Banco Central, a necessidade de capital de giro é o fator de maior peso na procura por crédito das micro, pequenas e médias empresas, e passou de +0,28 para +0,42 entre o primeiro e o segundo trimestre, com expectativa de +0,62 para o terceiro [BCB, Pesquisa Trimestral de Condições de Crédito, junho/2026, Tabela 4].
O risco acompanha o prazo. Em julho de 2026, a inadimplência do giro de até 1 ano estava em 2,48%, contra 2,42% um ano antes. A do giro acima de 1 ano subiu de 5,47% para 6,34% [BCB, séries SGS 21090 e 21091]. Uma cautela: carteira que cresce rápido tende a mostrar inadimplência baixa no começo, porque boa parte dos contratos ainda não chegou ao vencimento. Em valor, o atraso acima de 90 dias no giro curto passou de cerca de R$ 1,7 bilhão para R$ 2,3 bilhões, alta de 34%, um pouco acima do crescimento de 31% da carteira. Os 2,48% precisam ser acompanhados nos próximos meses.
O produto que parece fácil custa caro para todo mundo
No fim da lista de risco estão os produtos que o empresário usa quando não tem outro à mão. O cheque especial de pessoa jurídica movimentou R$ 304,1 bilhões em doze meses, com inadimplência de 22,66% e juros médio de 356,05% ao ano nas novas operações [BCB, séries SGS 20644, 21095 e 20727]. A conta garantida somou R$ 252,5 bilhões, com juros de 57,38% ao ano e inadimplência que subiu de 3,37% para 4,88% em doze meses [BCB, séries SGS 20643, 20726 e 21094].
Compare com a antecipação de cartão, que também movimenta centenas de bilhões por ano: juros de 16,25% contra 356,05% ao ano, e inadimplência de 0,01% contra 22,66%. A empresa que termina no cheque especial quase sempre é uma empresa que não recebeu, a tempo, a oferta do produto estruturado que cabia no negócio dela.
Sobre o cartão de crédito empresarial: dos R$ 297,4 bilhões contratados no período, R$ 234,3 bilhões são compras à vista, que funcionam como meio de pagamento. Por isso o número total do cartão não serve para comparar risco com os demais produtos [BCB, séries SGS 20656 e 20655].
O cheque especial não é um produto que alguém vende. É o lugar onde o cliente cai quando ninguém vendeu nada para ele.
Como montar a esteira a partir do jeito que o cliente vende
Os números apontam uma regra simples para organizar a oferta: comece pela forma como o cliente recebe, e não pelo valor que ele pede.
- Recebe no cartão: antecipação de faturas. Juros de 16,25% ao ano e inadimplência histórica abaixo de 0,30%. É o produto de entrada mais fácil de defender com o cliente e com a instituição.
- Recebe por boleto e duplicata: desconto de duplicatas e recebíveis. O maior volume do sistema, com juros de 19,25% ao ano e inadimplência de 0,94%.
- Vende para uma rede de clientes ou compra de uma rede de fornecedores: vendor e compror, com juros entre 16,94% e 17,57% ao ano e inadimplência abaixo de 0,6%.
- Exporta: financiamento a exportações, com os menores juros da lista, 13,91% ao ano, e inadimplência de 0,56%. As concessões cresceram 17,7% em doze meses.
- Precisa de caixa sem recebível vinculado: capital de giro de até 1 ano, com juros de 26,46% ao ano. É o produto cujas contratações mais cresceram, com prazo médio perto de três meses nos últimos doze meses. Contrato curto traz o cliente de volta à mesa mais cedo.
O que fica de fora da esteira é justamente o que aparece na conta do cliente sem que ninguém tenha oferecido: cheque especial e conta garantida usados como capital de giro permanente.
O que o empresário que vende crédito faz com isso
- Pergunte primeiro como o cliente recebe. Cartão, boleto, exportação ou contrato com rede de fornecedores definem o produto antes do valor. É a pergunta que mais encurta o caminho até a operação certa.
- Trate recebível como porta de entrada. Quase metade do volume do mercado passa por dois produtos apoiados em venda já feita. São operações que a instituição aceita com mais facilidade e que o cliente entende rápido.
- Venda recorrência, não operação avulsa. O capital de giro ficou mais curto, e contrato curto volta à mesa mais cedo. Cada nova contratação é uma nova venda para quem acompanha o cliente de perto.
- Mostre ao cliente quanto custa ficar sem estrutura. A distância entre 16,25% ao ano na antecipação e 356,05% ao ano no cheque especial é o argumento comercial mais forte que existe nesta tabela.
Importante: taxas, prazos e condições variam por instituição e dependem da análise de cada operação. Os dados citados são médias do mercado nos períodos indicados e podem ser revisados pelo Banco Central. Este conteúdo é informativo e não constitui recomendação nem promessa de contratação.
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Conhecer o ecossistemaFontes desta análise
- Banco Central do Brasil — Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS), consultado em 17 de setembro de 2026, com dados até julho de 2026. Concessões de crédito com recursos livres a pessoas jurídicas: séries 20635 (total), 20636 (desconto de duplicatas e recebíveis), 20638 (antecipação de faturas de cartão), 20639 e 20640 (capital de giro até e acima de 1 ano), 20642 (capital de giro total), 20643 (conta garantida), 20644 (cheque especial), 20651 (vendor), 20652 (compror), 20655 e 20656 (cartão à vista e total), 20657 (ACC) e 20659 (financiamento a exportações);
- Banco Central do Brasil — SGS, taxas médias de juros das novas operações (séries 20718, 20719, 20721, 20722, 20723, 20726, 20727, 20734, 20735 e 20738), inadimplência da carteira com atraso acima de 90 dias (séries 21086, 21087, 21089, 21090, 21091, 21094, 21095, 21102, 21103 e 21109), saldo do capital de giro (séries 20547 e 20548) e prazo médio das concessões em meses (série 20860);
- Banco Central do Brasil — Glossário de Estatísticas Monetárias e de Crédito, para as definições de concessão, taxa média, inadimplência e prazo médio;
- Banco Central do Brasil — Relatório de Política Monetária de junho de 2026, páginas 24 e 43 do arquivo, sobre o crescimento das concessões de curto prazo a empresas;
- Banco Central do Brasil — Pesquisa Trimestral de Condições de Crédito, resultados de junho de 2026, Tabela 4, fatores de demanda para micro, pequenas e médias empresas.
Conteúdo produzido pela equipe editorial da Crédito360. As séries foram consultadas na API pública do Banco Central em 17 de setembro de 2026, com dados até julho de 2026, e os totais de doze meses foram somados a partir dos valores mensais. Os números podem ser revisados pelo Banco Central nas próximas divulgações.